Pelo belo se chega à verdade

Pontualidade britânica” — é como costumamos nos referir a alguém que cumpre realmente os horários. E como símbolo dessa pontualidade há um verdadeiro monumento: o Big Ben, o famoso relógio em Londres.

Esse relógio poderia ser também o símbolo de outra “pontualidade”, que não se limita à exatidão no cumprimento dos horários mas na busca sincera da verdade, do bem e do belo.

Essas duas pontualidades coincidem na pessoa do arquiteto que planejou e orientou a construção do Palácio de Westminster e da torre do Big Ben.

AUGUSTUS PUGIN

Augustus Pugin nasceu em Londres em 1812, filho de uma nobre família francesa que ali se refugiara para escapar aos massacres da Revolução. Educado desde cedo em toda forma de preconceitos contra a Igreja Católica, a misericórdia divina, entretanto, ia compadecer-se dele de modo inesperado.

Augusto Pugin

Ainda adolescente, seu pendor para a arte se manifestou, tendo, já aos 19 anos, recebido a incumbência de restaurar e decorar parte do Castelo de Windsor, residência da família real. Para a elaboração destes trabalhos e de outros sucessivos, tomou contato assíduo com a arte gótica, suas catedrais, ogivas e vitrais.

Viajou por vários países europeus, notadamente a Alemanha, para melhor conhecer o estilo que lhe encantava.

Conforme ele mesmo escreverá mais tarde, “aprendi as verdades da Igreja Católica nas criptas das velhas igrejas e catedrais europeias (…) e a força irresistível da verdade foi penetrando em meu coração (…) sem ter conhecido um só sacerdote, ajudado apenas pela graça e misericórdia de Deus, resolvi entrar na sua Igreja”.(1) Submeti de bom grado meu falível julgamento às decisões infalíveis da Igreja e, abraçando de alma e coração a sua fé e disciplina, tornei-me um humilde, mas verdadeiro membro fiel”.(2)

Daí em diante, Pugin consagrou o melhor de seu talento a serviço da Igreja, pois em sua alma já não existia distinção “entre a sua fé e a sua arte”.(3) Sua capacidade criativa manifestou-se prodigiosamente nas catedrais católicas de Birmingham (Inglaterra) e Enniscorthy (Irlanda), em igrejas como a de Saint Gilles, em Cheadle (Inglaterra).

Via, em coerência com a verdade, que as celebrações litúrgicas deviam ser sempre realizadas com pompa e esplendor. Isto o levou a doar ricos paramentos de ouro e púrpura para serem utilizados na solene cerimônia de inauguração da Igreja de Santa Maria, em Derby.

Escreveu diversos livros sobre liturgia e arquitetura, sendo considerado um dos mais influentes teóricos da arquitetura britânica do século XIX. Com apenas 25 anos, foi nomeado professor de História Eclesiástica em Scott.

O BIG BEN

Em outubro de 1834 um incêndio destruiu quase todo o antigo Palácio de Westminster, cujas origens remontavam ao século XI. Para substituí-lo, a Câmara dos Lordes, designou Pugin, então com 24 anos, para projetar o novo prédio, cuja magnificência é vista até nossos dias. Foi designado para projetar a nova torre, que ostenta o talvez mais famoso relógio do mundo: o Big Ben.

Nesse período Pugin foi acometido por uma doença que paulatinamente fez definhar sua força física, mas não seu gênio criador. Vendo que lhe restava pouco tempo de vida afirmou: “Devemos trabalhar pela causa enquanto temos fôlego”.(4)

Deu de si mesmo este testemunho, alguns dias antes de falecer: “Aprendi a amar a Deus de tal forma que a morte nada tem de terrível aos meus olhos. Sinto-me resignado como se tivesse de fazer uma viagem”.(5)

Com essas disposições, entregou a Deus sua alma no dia 14 de setembro de 1852, depois de receber os últimos Sacramentos.

(2) FERREY, Benjamin. Recollections of A.N. Welby Pugin, and His Father Augustus Pugin; with Notices of Their Works. London: Stanford, 1861, pp.104, 109.

(1) HILL, Rosemary. God’s Architect. Pugin and the Building of Romantic Britain. New Haven: Yale University Press, 2009, pp.4, 126.

(3) WILLIAMSON, Claude C. H. Great Catholics. New York: Macmillan, 1939, p.319.

(4) Hill, op.cit., p. 474.

(5) Idem, p. 481.

(Condensado do artigo “O arquiteto do Big Ben” de autoria do Diácono Inácio de Araújo Almeida, EP (hoje sacerdote), revista “Arautos do Evangelho”, nº 153, setembro de 2014, p. 16-18. Para acessar a revista Arautos do Evangelho do corrente mês clique aqui )

Ilustrações: Arautos do Evangelho, Gustavo Krajl, David lliff, Wiki.

One thought on “Pelo belo se chega à verdade

  1. Sempre achei que as coisas da Igreja devem ser belas. Vi outro dia aí no Blog umas fotos da basílica dos Arautos em são Paulo, que coisa linda! A beleza leva para Deus. Leo

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